A gente, agente ou há gente?

Três expressões foneticamente idênticas: a gente, agente e há gente. Como e quando usá-las sem cair no erro?

A língua portuguesa tem suas características que a faz diferente de outras línguas. Neste sentindo, temos uma estrutura linguística formada por anos de evolução toda nossa pronta para ser usada e abusada pelo falante em seus diversos contextos. Mas, nesse grande universo complexo que a língua, temos uma infinidade de usos e modos que podem contribuir para aquela pequena dúvida, acarretando um equívoco.

Errar é humano e totalmente compreensivo, e isso se aplica na hora de empregar uma palavra ou outra ema frase um texto ou uma prova de concurso. Há diversos motivos para o erro. Pode errar alguma palavra porque não se sabe a regra. Pode errar outra palavra porque se desconhece a exceção.

Há também as questões fonéticas que dá um nó nos ouvidos, fazendo confusão com a ortografia das palavras. E nesse jogo de regras e exceção, sons e grafias, a dúvida chega atropelando o pobre falante, culminando um desafio na arte de escrever. Mas, é importante ressaltar que todo erro é bem-vindo e faz parte do processo de aprendizagem. Afinal das contas, perto do que significa a língua, o que é um erro?

Entendendo as expressões: a gente, agente e há gente

Muito comum que alguns termos sejam foneticamente semelhantes e semanticamente distantes, como quando ocorre nas expressões a gente, agente e há gente. Será que são corretas?

As três expressões estão corretas e são empregadas em situações diferentes. Elas são chamadas de homófonas, quando as palavras possuem a pronúncia igual, mas o sentido é totalmente diferente. Deu um nó no ouvido, então vamos lá:

A gente

Essa expressão é uma locução pronominal, formada pelo artigo definido “a” e pelo substantivo “gente”, que equivale ao pronome pessoal do caso reto nós. O substantivo gente, por sua vez, designa o sentindo de humanidade, de pessoa. O seu emprego está associado a um aspecto mais informal da fala, utilizada amplamente em contextos mais prosaicos, ou seja, no cotidiano. Ela deve ser utilizada na terceira pessoa do singular, justamente para exprimir um sujeito indeterminado, com sentido global. Exemplos:

A gente vai ao cinema hoje à noite.

Toda a gente tem vontade de ser alguém na vida.

Agente

O agente, segundo os dicionários, é o “que age que exerce alguma ação, que produz algum efeito”. Também tem o significado “de quem agencia ou trata de negócios alheios” ou “uma pessoa encarregado de uma agência”. A palavra agente é um substantivo comum e não pode ser confundida com a locução pronominal a gente.

O agente secreto da KBG foi descoberto na operação.

O agente ativo desta oração executa a ação.

Há gente

Neste caso, o sentido é de tem pessoa ou existem pessoas, já que o há é uma das conjugações do verbo haver, e deve ser utilizada com esse significado. O verbo haver é impessoal e sempre deve ser utilizado na terceira pessoa do singular, pois não possui um sujeito.

Há gente que chora quando lê romance.

O perigo do preconceito linguístico

A língua é complexa e sofre constantes evoluções conforme o tempo e a necessidade do falante, por isso, ela não pode ser entendida como algo estático. Outra característica da língua está em suas muitas variáveis, e isso se aplica à Língua Portuguesa.

Pensando nas variáveis da língua portuguesa falada no Brasil, há a forma padrão, que por sua vez, é a variante mais privilegiada. Essa variante é ensinada nas escolas e nas gramáticas normativas.

É comum que muitas pessoas caiam no engano de achar que apenas a variante privilegiada é a correta. Não, não é. Quando isso acontece, ocorre o que se chama de preconceito linguístico.

O preconceito linguístico é o julgamento depreciativo contra determinadas variantes linguísticas. Para a língua não existe o certo ou o errado, existe a interação da comunicação e o entendimento entre seus falantes. Quando algum indivíduo se expressa utilizando de forma não padrão, como quando ocorre com as expressões a gente, agente e há gente, ele não está cometendo um erro.

A abordagem que o preconceito linguístico estabelece na sociedade, colabora com o alargamento das diferenças e um distanciamento maior entre as pessoas que não tiveram acesso à escolarização ou que possuem a variante diferente da privilegiada.

Dentro do Brasil, existem vários outros brasis com uma formidável diversidade cultural. Determinar a fala é cravar uma sentença aos que não se enquadram dentro do que dizem ser o correto.

A língua ensinada na escola não deve ser taxada como algo que distanciam as pessoas, que causam desconforto e preconceitos. Ela serve para ensinar as pessoas a ler o mundo de suas diversas formas, e o principal, possibilitar que todos os indivíduos consigam transitar entre todos esses brasis.

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